terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Amigos
Teclas dispersas na sua frente
Palavras, frases sem nexos, dilatadas pelo desejo de compreender seus encantos
A garganta reclama do sabor forte de conhaque em plena madrugada
Something in the way she moves, attracts like no other lover
A ansiedade pela busca da maneira certa de montar em palavras as imagens distorcidas que serpenteiam pela sua mente o leva ao devaneio
Realidade
Em busca de sua própria imagem de pele negra de pedra, seu canto de liberdade em meio à morosidade massiva que percorre o seu corpo nos últimos tempos, a sensação de irrealidade da vida insossa, tortuosamente maçante, delicadamente passiva para seu próprio sadismo, que se delicia com o seu próprio sentimento de culpa.
Sonho
Ele para de escrever, levanta os olhos para o teto branco enquanto pousa a mão ao lado do seu notebook, a mesa e o teclado sujos pelas cinzas de um marlboro vermelho pela metade, desleixo ao qual se permite somente pelo fato de ser o passo mais fácil para uma morte pseudo-planejada... nada como um suicídio em andamento para apaziguar o dia...
A tranqüilidade de uma vida jogada ao acaso, de uma situação simples e triste...
Nesse momento de introspecção, de pensamentos em fúria pela forma mais precisa de transcorrer os acontecimento decorridos na tarde do mesmo dia, ele é atrapalhado pelos gemidos constantes do seu querido porém não voluntário companheiro de quarto.
Gira na cadeira, com o cigarro no canto da boca e fita o seu amigo, um senhor de uns 60 anos, calvo no topo da cabeça, óculos bonitos porém ligeiramente grandes para o rosto pequeno e apoiados em um nariz fino, agora semi tampados pelo pano preso na frente da boca.
O corturno de salto duro faz um barulho mortal na chão de taco, enquanto ele se aproximo do homem com o qual ele ira partilhar de seus momentos mais íntimos. Olhos nos olhos, sente o medo de seu amigo e isso o irrita. Não quer ser visto como um monstro, a culpa não é dele. Nasceu assim. Em qual momento ele escolheu gostar disso?
Ajuda o seu amigo a se levantar, colocando-o em uma cadeira de madeira no canto da sala, e retira o pano.
“Sabe o que é engraçado? Eu não consigo entender como as pessoas levam uma vida totalmente desmotivadas e ainda assim acham que isso irá levá-las a algum lugar. Cá estou eu, pensando em como eu posso rir no próximo segundo e ainda assim estou morrendo por dentro. O que você acha disso?”
Silêncio e medo
“Eu não esperava uma resposta mesmo. Você deve ser mais um dos muitos que não sabem levar a vida.”
Cigarro e conhaque
“Sabe o que eu acho engraçado? Digamos que nesse mundo temos 2 tipos de pessoas. As quer sabem lidar com as situações e as que não sabem... Pensemos nisso...”
Estende a mão para um estojo que esta em cima de um armarinho no canto da sala, e de dentro dele retira uma longa faca de lâmina curva, com adornos em metal no final do cabo, e isso provoca um jorro de lágrimas e grunhidos em seu amigo.
“Ei ei, vamos... pare com isso, estamos conversando... Odeio conversar com pessoas que não sabem ouvir, ficam apenas gritando ou chorando... Estamos a breves momentos de nos revelarmos um para o outro, e eu não quero desperdiçar nada... Então, voltando ao assunto” apaga o cigarro no cinzeiro da mesa de centro da sala “Dentre esses dois tipos de pessoas, digamos que só a primeira é útil para o mundo. A própria natureza trata as suas crias dessa forma. A lei do mais forte, a lei do mais adaptável, não me importa como quiser chamar, mas faz parte da maneira como o mundo gira.”
Retira do estojo instrumentos para afiar da lâmina da faca, e os posiciona metodicamente na mesa.
“Agora, imagine essas pessoas que sabem lidar com as situações... Lidar com um mundo estável é fácil e prático. Mas, no momento em que as coisas ficam divertidas, quando todo o seu controle é retirado sobre todas as coisas, quando você pensa que nada esta ao seu lado, quando você sabe que as coisas podem e provavelmente irão dar errado, quando o circo pega fogo... É nessas horas que conhecemos as pessoas que realmente movem essa coisinha chamada sociedade... Quem consegue solucionar os seus problemas quando nada mais da certo... Essas são as pessoas realmente valiosas para a sociedade.”
Se levanta, tendo preparado tudo o que considerava importante para o momento e se aproxima do seu amigo. Faca em punho, vislumbra o terror e fareja o medo, e ri.
“A sociedade errou em muitos pontos enquanto se desenvolvia, mas acho que o maior erro é achar que todo ser humano merece viver. Tem pessoas que não servem para ajudar. Mas acho que eu não posso dizer isso de você, afinal de contas nós dois sabemos, que nesse exato momento, você esta me fazendo rir, e isso é quase tudo o que você pode fazer na sua vida... Não podemos mudar tudo nas coisas meu caro, o destino é inexorável... Ou você aprende a rir com a vida, ou ela vai te deixar maluco...”
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Uma volta...
Sentado na cama de um silencioso quarto escuro, sorvendo o ar repleto do sabor inebriante da chuva, constante a um ou dois dias, olhos fixos na parede nua do cômodo, tomado pela nostalgia de momentos revividos pela presença do corpo inerte ao seu lado.
A bolsa de crochê, pendurada na porta do pequeno armário do quarto, carrega o ar de menina-mulher onde hoje reside uma mulher mais vivida e dura. O sorriso continua belo, mas o olhar sedutor tornou-se avaliador e inquisitivo, como se a questionar as suas capacidades em instantes.
Ela ressona, tirando-o do transe em que se lembrava de um dia no começo da faculdade, em que caminhavam pela chuva na direção do metrô, saindo do shopping Center Norte. Programinha de casal, passeio, cinema, beijos, carinhos e risadas. Incrível como as vezes a nossa memória é sádico, masoquista, nos colocando frente a frente com o cheiro doce do perfume que ela usava. Nunca conseguiu arrancar-lhe a marca, mas aquele cheiro tem o sabor do seu corpo.
Ele se levanta e fita a mulher nua que esta deitada na cama. O corpo esguio continua o mesmo, mas a energia é diferente. O sexo foi forte, intenso, um furacão de mãos, pés, cabelos, bocas, beijos, gemidos e arranhões. Mas faltou algo. E a dúvida o consumia até 10 minutos atrás. Ele sabia o que fazer, apenas estava procurando uma maneira de encontrar respostas diferentes, a exaustão de todas as possibilidades que sua mente divisou no breu da visão de um homem completamente apaixonado.
Já vestido e percorrendo o quarto com os olhos em busca de sua mochila, ele percebe que ao passar pela porta, nada mais volta. Se bem que ele não se importa mais. A mulher esta ali, o amor não mais. A química continua, mas a gana pela boca do outro se foi. A mágica de ficar preso naquele olhar ainda é forte, porém o fundamento é diferente.
O clique seco da porta as suas costas o fez estremecer, pensando que acabara de fechar a sua própria caixa de pandora. Um demônio pessoal. Sua própria succubus, que um dia poderia voltar a buscá-lo. Ele duvida, no fundo esperando que isso aconteça e que a roda do destino lhe seja favorável dessa vez. Os passos ecoam enquanto ele sai para deixar seu pecado para trás. Lá fora, a chuva fina e a luz mortiça das lâmpadas das ruas o esperam, enquanto em sua mente se repete apenas uma frase simples.
“O tempo tudo destrói...”