Sentado na cama de um silencioso quarto escuro, sorvendo o ar repleto do sabor inebriante da chuva, constante a um ou dois dias, olhos fixos na parede nua do cômodo, tomado pela nostalgia de momentos revividos pela presença do corpo inerte ao seu lado.
A bolsa de crochê, pendurada na porta do pequeno armário do quarto, carrega o ar de menina-mulher onde hoje reside uma mulher mais vivida e dura. O sorriso continua belo, mas o olhar sedutor tornou-se avaliador e inquisitivo, como se a questionar as suas capacidades em instantes.
Ela ressona, tirando-o do transe em que se lembrava de um dia no começo da faculdade, em que caminhavam pela chuva na direção do metrô, saindo do shopping Center Norte. Programinha de casal, passeio, cinema, beijos, carinhos e risadas. Incrível como as vezes a nossa memória é sádico, masoquista, nos colocando frente a frente com o cheiro doce do perfume que ela usava. Nunca conseguiu arrancar-lhe a marca, mas aquele cheiro tem o sabor do seu corpo.
Ele se levanta e fita a mulher nua que esta deitada na cama. O corpo esguio continua o mesmo, mas a energia é diferente. O sexo foi forte, intenso, um furacão de mãos, pés, cabelos, bocas, beijos, gemidos e arranhões. Mas faltou algo. E a dúvida o consumia até 10 minutos atrás. Ele sabia o que fazer, apenas estava procurando uma maneira de encontrar respostas diferentes, a exaustão de todas as possibilidades que sua mente divisou no breu da visão de um homem completamente apaixonado.
Já vestido e percorrendo o quarto com os olhos em busca de sua mochila, ele percebe que ao passar pela porta, nada mais volta. Se bem que ele não se importa mais. A mulher esta ali, o amor não mais. A química continua, mas a gana pela boca do outro se foi. A mágica de ficar preso naquele olhar ainda é forte, porém o fundamento é diferente.
O clique seco da porta as suas costas o fez estremecer, pensando que acabara de fechar a sua própria caixa de pandora. Um demônio pessoal. Sua própria succubus, que um dia poderia voltar a buscá-lo. Ele duvida, no fundo esperando que isso aconteça e que a roda do destino lhe seja favorável dessa vez. Os passos ecoam enquanto ele sai para deixar seu pecado para trás. Lá fora, a chuva fina e a luz mortiça das lâmpadas das ruas o esperam, enquanto em sua mente se repete apenas uma frase simples.
“O tempo tudo destrói...”